sexta-feira, 26 de setembro de 2008

(Dia 15 parte reivindicativa)

PREÇOS DOS COMBUSTÍVEIS: ASSIM NÃO!
SÁBADO 27: NÃO SE ESQUEÇA, NÃO ABASTEÇA!

Dia 15

Hoje arrisquei. Fui de uma rebeldia atroz que muito me poderia ter custado.
O dia estava para se ser rebelde.O autocarro 1 apareceu mal cheguei à paragem, o autocarro 2 atrasou-se. O mundo hoje conspirou para que eu pudesse dormir mais deliciosos 15 minutos. Obrigado Mundo, uma estagiária precisa.
Acabada a preguicite, chegou a hora de trabalhar. Ameaça de bomba numa escola, GNR presente e os alunos fechados nas salas de aula desde as 8h30, sem poder sair. Certo é que provavelmente é uma brincadeira de crianças que não queriam ter aulas, muito comum no regresso às aulas e provavelmente mais comum ainda depois da série televisiva de maior... sucesso, vá, em Portugal ter emitido há poucos dias um episódio com uma ameaça de bomba na escola feita por um aluno. Mas mesmo assim, brincadeira ou não, não custava muito tê-los posto fora do edifício.
Um Sr. está a levar a cabo uma greve de fome desde o dia 21 do presente mês para que alguém noticie as suas reivindicações relativamente à falta de recursos que enfrente, aos maus-tratos que alega ter sofrido na Stª Casa da Misericórdia.
Não está a ser comercializado/produzido em laboratório o único medicamento para a Miastenia Gravis, uma doença crónica de foro neurológico (similar a esclerose múltipla) que causa fraqueza e fadiga anormalmente rápida dos músculos voluntários. A fraqueza é causada por um defeito na transmissão dos impulsos dos nervos para os músculos, e pode ameaçar a vida quando a fraqueza atinge os músculos da deglutição e da respiração. Isto é vergonhoso e espero que alguém pegue nisto rapidamente. Eu sei que fiz muita força para que assim fosse, vamos ver.
Tenho um apelo, dúvido que façamos a cobertura disto. Dois professores vivem um momento angustiante. À Ana foi diagnosticado um Cancro no Sangue (linfoma não Hodgkins das Células T) e o marido está a organizar um concerto de beneficiência para ajudar a sua causa pois teve que pagar tratamentos caríssimos que o Estado devia suportar. Realiza-se a 25 de Outubro às 21 Horas, em Vendas de Azeitão - no Grupo Musical e Desportivo União e Progresso -. Mais informações em http://www.oficinamusicaluniaoeprogresso.blogspot.com/
E porque não quero que este blog seja o mais deprimente (embora real) de sempre informo-vos que o meu predilectíssimo Miguel Carvalho, repórter da Visão, foi o vencedor do prémio Literário Orlando Gonçalves 2008 (modalidade de jornalismo) com a reportagem Geração Sextasy, publicada na revista Visão de 29 de Março de 2007. Um idealista da profissão que muitos deveria inspirar.
Com o melhor que se pode fazer por hoje, um bom fim-de-semana a todos.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

A culpa é dos clientes...

Hoje senti um pontapé na barriga e estive enjoada. Não, não estou grávida. A minha orientadora é que está e senti um pontapé na barriga dela! O estar enjoada foi por ter emborcado o copo de leite sofregamente logo de manhã.

Lembram-se do trabalho desafiante? Pois. O copy não foi aprovado pelo cliente. No big deal, arranjam-se soluções.
Entretanto surgiu um outro trabalho no qual brilhei pela ideia inovadora que tive... foi gratificante!Vamos é ver se esta também morre na praia....

Dia 14

Entrar ao meio-dia implica:

Chegar e ter a caixa cheia de e-mails não lidos (i.e., 500/600) da noite anterior e dessa manhã;
Aterrar num dia já meio agendado, com n confirmações por fazer sem saber no que já se pegou;
Ser a última a almoçar porque fomos a última a chegar;
Ser a última a sair porque fomos a última a chegar...
Hoje conversei com editores. Parece que se se for realmente bom acabam por ficar eventualmente. Mas ainda assim há exploração, há trabalho em excesso e salário em défice, há muita inexistência de horários. Mas o que é mesmo ser bom neste momento?

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sim, sou nova!

Hoje fui gozada pela minha idade. Sempre foi um choque quando alguém lá na empresa me perguntava a idade. Ouvia comentários como "Eish! Isto é quase exploração infantil!"... Mas hoje foi maios marcado! Eu sou manifestamente a mais nova da agência e quase toda a gente mo relembrou durante o dia. Não me incomoda, aliás eles é que ficam incomodados! No entanto, parece que toda a gente se lembrou disso hoje. Sim sou novinha, bastante até, mas isso não quer dizer que não tenha qualidade naquilo que faço!

Durante a tarde surgiu um projecto desafiante. E desafiante é a palavra. O timing era apertado e o briefing foi passado já ao fim da tarde, mas proporcionou-me uma adrenalina tão grande fazer aquilo e ver que a minha ideia, as minhas palavras resultavam bem ali, estavam bem colocadas! Such a rush! Mas senti que era aquilo que queria fazer!

Por isso, posso dizer: balanço positivo para o dia de hoje.

Dia 13

Hoje foi duro começar o dia depois de uma noite mal dormida, mas lá decorreu com os sobressaltos do costume. Uma escola primária foi transferida para uma escola secundária desactivada que não tem condições para receber os 300 alunos que lá têm aulas actualmente. Porque a escola não tem os sanitários disponíveis, alugaram casas de banho portáteis (sim, daquelas dos concertos, com um depósito...) que estão impróprias grande parte do dia. E estamos a falar de crianças de idade pré-escolar, 1º, 2º, 3º e 4º ano.
O dia melhorou quando uma jornalista precisou de testemunhos para um tema que vai ser alvo de reportagem e eu pude sugerir uma família sobre a qual já fiz uma peça na Faculdade. Certo é que não assino - não estamos ainda nessa fase do estágio -, nem tenho qualquer influência na condução da reportagem. Mas eu fui a pessoa que garantiu que um maravilhoso caso se torne público e por hoje isso vai ter de chegar.
Está quase a terminar a 3ª semana de estágio. Regra geral, ficamos um mês em cada secção. O futuro é no entanto, por agora, incerto. Os estagiários que entraram no início do ano começam agora a partir, mas um foi contratado. Ele é a esperança.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Falhar até acertar!

Depois de um começo de dia estranho, senti-me bem com um pormenorzinho. A boss apresentou-me a um novo colega como se fosse uma trabalhadora normal, sem mencionar nem explícita, nem implicitamente que eu era estagiária! E numa pesquisa para um trabalho encontrei esta citação:


"Falhar.

Falhar de novo.
Falhar melhor."


Samuel Beckett

Dia 12

É com satisfação que informo que o rapaz que vivia num banco de jardim, na Alameda, de quem falei no décimo dia de estágio, vai ser alvo de reportagem, o que certamente levará à resolução da situação. Alguém decidiu insistir em enviar mail e eu reiterei o pedido de que se avançasse com algo. Foi também um dia bom no sentido em que uma das bosses me disse frontalmente que éramos um excelente grupo de trabalho e estávamos a funcionar muito bem. Foi o primeiro reforço positivo que recebemos, na terceira semana, não me parece mal de todo. Parece que não recebiam estagiárias dinâmicas e verdadeiramente dedicadas há algum tempo...
As escolas continuam com problemas, nomeadamente ao nível da falta de auxiliares de educação. Numa EB 2.3 no Algarve, crianças estão a ficar sozinhas durante cerca de uma hora porque não há auxiliares e os serviços de transporte escolar só estão disponíveis cerca de uma hora depois do final das aulas. Os reclusos de um estabelecimento prisional em Sintra estão a organizar uma greve pacífica - acho que falei com o recluso mais eloquente do país - por falta de condições e acompanhamento.

Palavras mal colocadas

O fim-de-semana foi recheado de conversa, música e cultura geral. Dito assim até parece um retiro de estudo, não é?
Foi muito bom, rever pessoas e passar algum tempo juntas só porque sim. E entre gritos ao microfone e exaltações por uma resposta certa, lá soubemos conviver em paz! A prova do bem-estar que se vivia era ver entrar três pessoas na cozinha e estarem todas a cantar… mesmo que fossem músicas bem diferentes!
Desde “Karma Chameleon” a “The Eye of the Tiger”, passando por “Tainted Love” e “Come on Eileen” tudo se ouviu, cantou e berrou naquela sala.
Demos cabo da paciência do Jorge Gabriel encarnado no Buzz e aprendemos umas coisinhas, por exemplo: sabiam que o George Micheal começou a carreira aos 15 anos?

Enfim, dois dias que terminaram com uma cover do grande clássico “Sometimes” da Britney, cantada aos berros algures por Chelas.

No estágio tudo calmo, algum trabalho...nada de transcrições. (YAY!) Só uns textinhos sobre livros infantis e os novos discos da música portuguesa, por agora.

Depois de um fim-de-semana fantástico, voltar ao trabalho pareceu-me tão cinzento. Hum… Também pode ser porque vesti cinzento na segunda e preto hoje. "Ressaca emocional", chamam-lhes algumas. A verdade é que ontem foi um dia suave e subtilmente estranho e hoje está a ser um dia denso, estou a achar difícil manter-me de ânimo leve. Parvoíces, inseguranças. Palavras mal colocadas.

Sim, as palavras, que agora provam ser tanto a minha paixão como a minha maldição.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Dia 11

Hoje foi o primeiro dia de estágio ao qual quis não ter de ir. Depois de um fim-de-semana passado na melhor companhia, - é bom saber que com horários diferentes e vidas estagiárias esgotantes, sete amigas ainda arranjam tempo umas para as outras - acordei resingona e cansada. Cheguei meia-hora atrasada, não houve drama, ninguém tem nada para agendar às 9:00h. Não ligou muita gente, ou quem ligou não podia ser ajudado, pelo menos não por mim, não hoje, com aquele humor de cão. Lamentei não ter podido ajudar a senhora cujo marido morreu há dois anos e lhe batia. Deixou-lhe uma dívida enorme e não a deixam aceder às contas dele. Desesperada que estava começou a chorar e aí é que as coisas se complicaram mais para mim, é difícil lidar com a tristeza nua dos outros tão perto de nós. Passei o dia meio k.o. com a vida a passar-me ao lado, mas estava tão zombie que nem me chateou! Soube que uma estagiária recebeu um grande elogio de uma das piores (más, exigentes, chatas, embirrantes) bosses de todo o ocs, e isso pôs-me a pensar: quando chegar a minha altura de fazer jornalismo a sério, saberei o que fazer? Virei a ser tão boa como gostaria de ser?

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

É o que dá passar horas a transcrever entrevistas.

Descobri hoje ao fazer mais uma transcrição que o meu cérebro não funciona mal de todo. (pois.) Quando ouço uma frase longa apanho em primeiro lugar a ideia e depois as palavras-chave. Digo isto porque muitas vezes coloco as palavras-chave em lugares aos quais elas não pertencem, mas que não alteram por isso o sentido da frase.
Ex:
O que escrevi:
"Porque o primeiro dia é sempre estranho, chegarem a um espaço complicado sem conhecerem as condições"
Correcta:
"Porque o primeiro dia é sempre complicado, chegarem a um espaço estranho sem conhecerem as condições"


Ai, fim de semana à porta e eu que nunca mais saio do estágio.

Dia 10

Hoje o dia começou relativamente qualquer coisa. Isto não significa absolutamente nada pois o dia nada tinha de especial até eu ter caído no meio do chão, num bocado de passeio entre duas passadeiras. Foi um aparato imenso porque estava com uma mala e dois sacos, cabelo esvoaçante e mão esfolada. Oportunamente estava a passar uma ambulância que parou e me perguntou se estava bem. Para lá do ridículo e do cabelo desalinhado, bem obrigado.
Cheguei ao estágio e as bosses ainda não tinham chegado, verdade é que cheguei antes das 9h - desnecessário - mas aproveitei para tomar o pequeno almoço que não fora comido em casa.
O dia de trabalho lá começou com as más notícias do costume. A que mais me escandalizou foi o facto de no Cascais Shopping, uma firma de restauração contractou uma Srª e quando lá se dirigiu, no seu primeiro dia de trabalho, foi-lhe dito "Desculpe, mas aqui não aceitamos pretas". Fiquei absolutamente agoniada com esta situação, e o mais triste é que não posso fazer nada porque o contracto apresentava uma cláusula para um período de experiência durante um mês e em tribunal poderiam alegar que a dissolução do contracto resulta desse período.
Para além disso há um caso de saúde pública perto da Quinta do Conde, onde existem cerca de 100 animais (entre cabras, ovelhas e cães) todos juntos, fechados num espaço muito reduzido e alimentam-se de outros animais que por ali perecem, sucumbindo aos maus cuidados. Isto indigna-me quase tanto como a questão que realcei anteriormente porque adoro animais e custam-me imenso estas situações. Este caso já está no entanto a ser seguido e espero que se resolva em breve. Aproveito por isso para divulgar aqui um blog que deverão consultar:
http://www.patavermelha.blogspot.com/
Este projecto promove a entrega de medicamentos a diversas associações, canis, etc. E a ajuda nunca é demais.
Para além disto tudo, um rapaz foi posto fora de casa pelo padrasto, a quem não agrada os 3 cães do rapaz. Há cerca de 3 semanas dorme num banco de jardim, na Alameda, em Lisboa. Não está disposto a desfazer-se dos cães, ou pelo menos, não sem encontrar um lar apropriado. Esta história faz-me lembrar um sem-abrigo que via muito, o ano passado e há dois anos, na Baixa da cidade. Andava sempre com seis ou sete cães, com a particularidade de que eram todos brancos (sujo). Não o vejo desde o Natal. Que será feito dele?
Sou uma pessoa optimista e vou ter de continuar a sê-lo embora seja difícil - mas inevitável - nesta profissão. O bom da minha primeira secção de estágio é saber tudo do que se passa em todo o lado. E o bom é o mau também.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A cor azul

Eu tenho um grave problema. Chama-se azul. O ecrã do meu computador assume várias vezes (durante demasiado tempo ultimamente) um tom de azul que me anda a deixar maluca. Hoje aproveitei todos os bocadinhos em que a minha orientadora não estava para me apoderar do dela e evitar ver a vida azulada. Os colegas riem-se e dizem para ir fazendo back-ups porque o computador já anda a ameaçar pifar....Eu lá vou obedecendo e esperando em segredo que dê o berro rápido!
Enfim.

Mudando de assunto, sempre soube da existência de um mito que versava sobre o início de um texto. O custoso é a primeira frase – ouvia dizer. Mas nunca o senti de forma marcada na pele. No entanto, hoje ao escrever um artigo, e depois de terminado o terceiro parágrafo, bateu-me. Não, não foi o parágrafo que me bateu. Apercebi-me de que estava a ser extremamente difícil arranjar uma forma de começar o quarto. O que é que se pode depreender disto? Que eu só começo os textos ao quarto parágrafo.

Sem mais a acrescentar...

Dia 9

Não é fácil escrever o que quer que seja depois de ver o documentário autocarro 174. Interrogo-me como será ser estagiário num órgão de comunicação social brasileiro, em que as notícias de morte, sequestro, suicídio, violação são tão vulgares que só os casos extremos são notícia. Que vontade de pegar nestas crianças todas e dar-lhes um colo, um abrigo, pegar neste país e pô-lo de bem consigo mesmo...
Bem, por cá suicidou-se outro GNR, mas no meu ocs não vai ser notícia. Não que não interesse. Pelo contrário. Mas noticia-lo dá a conhecer às restantes pessoas o caminho tomado não só por um, mas por dois (a juntar aos seis do ano passado), e quem estiver mais neste desespero pode encontrar na solução deles, uma solução para si também.
As pessoas continuam a queixar-se das reformas na Educação, nomeadamente ao nível do Ensino Especial, onde os apoios foram retirados e se promove uma integração forçada das crianças em ambiente regular. Outros pedem casas, outros querem que lhes resolvamos a vida, outros só precisam de desabafar. E eu vou ouvindo, escrevendo, agendando o que vai ser notícia amanhã, depois...
Hoje surgiu também uma outra questão. Disse-me um colega boss que temos de aproveitar o nosso tempo por lá de forma muito preciosa, porque acaba em menos de nada. Compreendo isso e sei que estou a aprender mais sobre o funcionamento de um ocs do que em três anos de faculdade, mas pergunto-me, como aproveitar para aprender mais, saíndo às 20h30?
Como aproveitar para agendar a vida do mundo, quando a nossa fica para trás?

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

"É o luxo em post!"

Logo de manhã o meu primo foi chamar-me, já estava em pulgas para ir para a escola. Admirável mundo novo, ainda. De uma forma muito saudável e muito suave tenho saudades dessa leveza de espírito, dos 85% de convívio e os 15% de estudo/trabalho. Agora as percentagens mudaram um bocadinho e há uma nova variante: o cansaço, que traz muitas vezes as amigas frustração e desilusão.

Depois de deixarmos o petiz na escola, fomos à feira. Aquilo é giro, é igual às outras feiras todas. Confusão, gritos e q.b. de boas oportunidades. É sempre inspirador ouvir os pregões das ciganas, muitas vezes (algumas por acidente!) bem conseguidos. Dou-vos um exemplo: "10 euros, 10 euros (repetem sempre o preço para os mais distraídos não ficarem sem saber!) É o luxo em peça!" Até olhei duas vezes para a senhora... Sinceramente acho que aquilo passou ao lado da maioria das pessoas à minha volta, mas eu achei tão peculiar que fiquei impressionada e dei por mim a esboçar um sorriso.

Já na agência tivemos o privilégio de ver o filme da ecografia da minha orientadora, estivemos aproximadamente 6 minutos encantados com dedinhos e perninhas a preto e branco no ecrã do computador. Mas foi engraçado, eu nunca tinha visto uma e adorei!
A tarde foi passada, em grande parte, a fazer uma transcrição de uma entrevista, o que me valeu 4 horas a ouvir um Chefe e ficar com os ouvidos a latejar!

Por fim, é importante referir que hoje estiveram a remodelar a escadaria. Agora temos um estrado escuro de madeira a substituir o tapete vermelho que se estendia pelas escadas de mármore.E de cada vez que descia ou subia, os dois senhores seguravam o estrado de madeira para eu pisar e passar, haja luxo! Ou se preferirem: É o luxo em escada!

Dia 8

O meu pai nunca quis que eu tirasse a carta.
Para além dos possíveis perigos que daí adviessem, alimentara durante anos uma imagem idilica dos jornalistas sem carta [ou sem fazer uso dela] que iam para todo lado de transportes públicos [muito BE] ou de Táxi [muito pouco BE, supostamente]. Ora, é tudo muito romântico em sonhos ou no papel; na prática, como hoje, o dito jornalista teria que ter um episódio psicótico com uma jovem sinistra de cabelos negros, franja cortada à altura dos olhos que não parava de olhar para ele [mim], não revelando qualquer pudor nem com os meus longos suspiros, ou olhares directos e claramente incomodados. Depois teria de ser esborrachado nos estreitos corredores de um autocarro apinhado de jovens que regressam à escola. Depois o seu dia melhoraria [melhorou] um pouco quando visse um esquilo a atravessar a estrada e a passar para uma pequena zona de Pinhal, em plena Lisboa!!! E aí pensaría "afinal isto não está assim tão mal..."
O dia foi, de resto, extenuante. Não parámos um segundo, almoçámos tardíssimo, e quando o carinho passou à tarde ainda tivemos de ouvir um ilustre colega jornalista dizer "não percebo porque é que os estagiários têm acesso ao carinho". Estupidamente sorriu julgando que isso apagaria a ignorância das suas palavras. E aí pensei que gostaria de ter aprendido algo com a sinistra do autocarro.
À parte disto, existem crianças em Felgueiras a ter aulas no exterior (sim, na rua mesmo) porque a escola não tem capacidade para o número de alunos que tem, e os pré-fabricados que lhes prometeram não chegam em breve. Mas para o Sr. Engenheiro e PM? [? interrogação com ênfase no engenheiro] e para a Sr.Ministra da Educação [? interrogação com ênfase na Educação] o regresso às aulas foi UM SUCESSO! Se é assim, então ficamos todos muito mais descansados. Os diplomas de mérito estão todos entregues, interessa lá que quase 50 mil professores não tenham sido colocados? Interessa lá que existam escolas sem professores, outras com os docentes incrivelmente sobrecarregados, outras sem funcionários, outras sem condições? As queixas e denúncias que recebemos diariamente relativamente ao estado da educação e (in)segurança no nosso país são já tantas que temos de resumi-las aos casos mais insólitos, degradantes e inadiáveis.
Resta-nos suspirar e fazer a nossa parte.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Palavras pequeninas

A manhã não foi lá muito agradável. A orientadora fez-me bastantes reparos num texto que eu tinha feito e custou-me um bocado - ela não foi agressiva, mas fiquei triste comigo mesma. Desiludida. Vinguei-me nas compras. Um cinto, um casaco (mangas), uma camisola e uns sapatos.

Já ao fim da tarde, em pesquisa para um trabalho sobre a baquelite, descobri uma das maiores palavras que eu já tinha visto:

polioxibenzimetilenglicolanhidrido, trata-se da junção do fenol
com o formaldeido (aldeído fórmico), que forma um polímero chamado polifenol. 34 letras!

Mas depressa percebi que isto até nem era nada, a maior palavra portuguesa é:

Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, que define uma pessoa que tem uma doença pulmonar causada pela inspiração de cinzas vulcânicas. Este monstruoso vocábulo de 46 letras foi pela primeira vez registado no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa em 2001. Em segundo lugar, com 45 letras, temos a designação da mesma doença: Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose.

Num honroso terceiro lugar temos a palavra que me levou ao choro de tanto rir. Não pela sua composição em sim, mas pela definição. A Hipopotomonstrosesquipedaliofobia é uma doença psicológica que se caracteriza pelo medo irracional (fobia) de pronunciar palavras grandes ou complicadas.

33 letrinhas só para aqueles que têm medo de pronunciar palavras grandes - que é para não serem maricas! Porque nem que quisessem não conseguiriam nomear a doença de que sofrem...Agora pergunto: só eu é que acho isto incrivelmente irónico?

A palavra adorada pelo Diogo Infante está em quarto com 29 caracteres: Anticonstitucionalissimamente. E o senhor Dr. Oftalmotorrinolaringologista fica em quinto com apenas 28 letras.

Peanuts quando comparadas com a maior palavra do mundo que é inglesa e tem 189.819 letras. Sim, sim, leram bem: cento e oitenta e nove mil, oitocentas e dezanove letrinhas. É a designação química de uma proteína conhecida por Titin: comprova aqui.

Dia 7

Este horário mata-me. Ainda estou na redacção. Os saudáveis alimentos que trouxe para o dia já se esgotaram, bem como as delícias do carinho. Resultado: estou a comer mm's.
Folgo em informar que a notícia da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto já saiu, portanto o mundo já sabe. Hoje, em Setúbal, um polícia prendeu, sem razão aparente, um homem portador de deficiência. Segundo a fonte, para o efeito estavam presentes 3 carros e uma carrinha da Polícia de Intervenção. Caso para perguntar, onde pára a polícia quando estão a assaltar bombas de gasolina, pessoas e casas? Está a prender um deficiente em Setúbal.
Um GNR pôs hoje termo à vida, e as crianças que têm nascido nos últimos dias não estão a receber a vacina da BCG porque o Ministério da Saúde deixou acabar. Todo o distrito de Lisboa está sem vacinas para administrar aos recém nascidos. O Infarmed não se responsabiliza, supostamente, porque não receberam nenhuma encomenda do Ministério. As linhas de saúde tentam descansar os pais com um "ahhh, mas isso pode tomar durante todo o 1º mês de vida, que não tem problema". Sabe-se lá porquê (...) este facto não parece descansar os pais.
As queixas das escolas continuam, umas não abrem, outras abrem com deficiências, sem transportes assegurados, etc, etc, etc.
O insólito do dia foi a história de um senhor cujo automóvel foi roubado há dois anos. Pouco tempo depois foi apreendido pela GNR das Caldas da Rainha e o Ministério Público exigiu: ponto1. (Para além do carro estar em nome da esposa do Sr. e ter apresentado queixa aquando do furto), a factura da compra do automóvel - por acaso tinham-no comprado num stand e tinham o recibo). ponto 2. um extracto bancário que atestasse o débito do valor do automóvel. De risos, no mínimo.
Daqui e por agora, nada mais a agendar.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Só mais um.

O dia começou atribulado: dentro de um autocarro com um condutor desvairado que, pela certa, gostava de ter participado no Euromilhões Pax Rally. O ideal para acordar! Entre uma ou outra curva violenta e aquelas travagens de esfarelar neurónios, lá ia eu a ouvir músicas boa-onda de sotaque brasileiro e a tentar sobreviver.

Manhã com algum trabalho e povoada de risos e lágrimas aquando da recepção de um e-mail, aqui da Rivka, com as melhores fotos dos jogos olímpicos deste ano! Foi a gargalhada geral lá no sotão,perdão, lá na penthouse!

Entretanto tive de ligar a um senhor para validar um texto:

- Bom dia, lembra-se de mim? Queria validar o texto consigo...

Uma voz ensonada atende do outro lado:

- Ah então a minha mulher não lhe enviou as fotografias?

E eu já a ficar atrapalhada....

- Ah não, não, mas estou a ligar-lhe por outra razão...É uma boa altura para lhe ler então o texto?

Aquela voz de quem ainda está enrolado nos lençóis quentes.

- Ahhhh...não, lá p'as 16h00 pode ser?

- Sim, sim...bom dia.

E depois de acordar um Sr. com um telefonema (o que é sempre bom!), voltei ao trabalho.

Durante a tarde, lá consegui falar com o Sr. acordado e, depois disso, aconteceu uma coisa gira.
Vi a minha orientadora levantar-se e dirigir-se à garrafa de licor. Como ia a falar pensou que ninguém reparava, mas não conseguiu abrir a garrafa. Fui ajudá-la e pimba, desapareceu um centímetro do líquido.

Mais tarde vi outra colega com um copinho na mão e zás, mais uma golada no licor. É uma festa!
Qualquer dia tenho que trazer mais!

Já perto das 20h00 e quando dei por mim a escrever coisas como "conicidências" e "apadtadas", achei por bem dar o dia por terminado e vir para casa...


Over and out!

Dia 6

Num dia de estágio relativamente calmo congratulo-me:

"Em média, os alunos das Universidades vão pagar mais 4,86 % de propinas do que no último ano lectivo"

Perante isto, UFFF! Melhor que a minha reacção, só mesmo a dos meus pais. Depois de um fim-de-semana descansado, lá chegou a 2ª-Feira, e o início da minha segunda semana de estágio. Escolas e mais escolas que, ao contrário das promessas do Governo, não abrem hoje (ou se abrem é só para dizer que vão fechar), a maior vergonha de sempre na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto que devido a um erro informático (!!!!!) se esqueceu de enviar os pré-requisitos de alguns alunos e por isso dizem não haver vagas para eles - quando têm media para entrar -, assaltos, patrões barricados, e mais e mais e mais.
O autocarro não passou a horas, irritou-me. No mp3 tocavam músicas que gritam FÉRIAS CALOR MAR e o ar saturado que se respirava - mal - no amarelinho da Carris amoleceu-me. Dei por mim a dar cabeçadas na atmosfera...E assim sim, não seria um estágio verdadeiro e extenuante se não adormecesse no autocarro.

domingo, 14 de setembro de 2008

Impossível não sorrir! (Post de Domingo)

Deolinda - Fado Toninho

É o remédio perfeito para as pontadas de tristeza/aborrecimento que se possam sentir em fins-de-semana solitários! A voz da Ana Bacalhau é deliciosa, o ritmo é divertidíssimo!

E agora trabalhar a ouvir isto? AHAHAHAH

Não, vá. O que tem de ser tem muita força.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Post de Fim-de-Semana

Escrevo agora na condição de pessoa, ser pensante, sentimental e de profundidade relativa. Não garanto que o que vá dizer tenha de fazer sentido ou interesse seja o que for para a vida de quem quer que seja. Estou a ouvir neste momento o TOP 10 do meu pai, do meu querido pai - beijinhos à mamã também, que embeleza o cenário - e são músicas de outros tempos que não o meu. Se fossem músicas banais, entreter-me-iam pura e simplesmente, mas fazem-me pensar - sentir!! viver um futuro mais ou menos próximo - que quero, daqui a 10, 15, 20 anos, estar em qualquer lugar, numa noite estrelada, em frente ao mar numa cadeira de baloiço, a ouvir as músicas que oiço hoje. E quero que o trabalho que fiz ao longo de cinco dias - metaforicamente falando - tenha significado e perdure, para que alguém menos aflito das dificuldades diárias e notícias tristes que lhe vou dar por vezes, possa, sossegado, em qualquer lugar, numa noite estrelada, contemplando o mar, ouvir as músicas que a História guardou.

Crazy Friday ou Sexta-feira Maluca

Como queiram.

De manhã, estive a acabar o trabalho que tinha ficado a meio ontem e, já perto do meio-dia, deu-se o acontecimento do dia (do qual já vos falei): a morte da minha bic.
Depois de almoço fui com a orientadora entrevistar um Chefe (de cozinha) a Lisboa. Foi giro. A meio da entrevista só ouço o Sr. Chefe dizer "gosto de me envolver com as hortaliças"
...Desculpe?
Eu a morder o lábio para não me rir, a minha orientadora com a mão à frente da boca para disfarçar. Enfim. Depois de tiradas as fotografias ao Sr., fomos fotografar os pratos e apanhámos a hora de almoço dos assistentes da cozinha (16h00), dois deles eram muito girinhos, pelo que não custou a hora extra de seca.
Nessa hora ainda li o livro de visitas e eis que encontro duas frases peculiares: "Se os olhos comessem comia-te o restaurante todo" e "Um brinde à amizade, ao amor e ao sexo. Ao sexo porquê? Porque não engorda!". Na minha opinião todos os restaurantes deviam ter frases deste calibre no livro de visitas!


Chegadas à agência, mais trabalhinho e desta vez o copy para um postal de natal (feito entre gargalhadas dos designers e do boss atrás de mim) foi revisto pela boss mesmo.
Foi aqui que descobri que ela é uma mulher de armas. Ou isso ou tem uma garganta pouco sensível: provou o licor e bebeu dois tragos em segundo e meio. No fim fez "huumm" e sorriu. Eu só me lembrava de ver o boss a tossir a cada golinho daquele elixir e ela ali na maior. Fiquei impressionada!


Depois de ter ficado encarregada de dois artigos para fazer no fim-de-semana em casa, peguei nos meus tarecos e, enquanto esperava pela minha boleia, provei o licor. E percebi tudo. A boss nem é lá muito grande, o boss é que é um menino: o licor não está nada alcoólico. Está bem bom até!

Bom fim-de-semana!

Dia 5 (parte 2)

Decidi ser pró-activa e respondi a um e-mail para avisar a senhora que embora não possa garantir a cobertura do assunto, encaminhámo-lo - neste caso para uma outra entidade competente dentro do nosso órgão -. Fiquei orgulhosa e se conseguir de facto arranjar tempo fá-lo-ei com maior frequência. Terminei ainda com votos de que o seu problema se resolva com maior brevidade possível. Estou convencida que o meu e-mail lhe possa trazer alguma esperança. Soube também que a minha boss mais nova costuma responder aos e-mais mais aflitos, o que me deixou muito feliz e assim parto descansada para o fim-de-semana.
Já são 17:02, por isso, sem nada a agendar me despeço com votos de bom fim-de-semana.

Dia 5 (parte 1)

Falta 1:15 para acabar a minha primeira semana de estágio.
O dia decorre com normalidade e o bom ambiente que se vive na redacção permite que se faça ouvir Dancin' Queen do filme Mamma Mia.
Nada a agendar e o dia ainda nem acabou, mas reformo-me já por esta semana, sugerindo-vos o trailler deste filme obrigatório.


R.I.P. Bic

A minha caneta acabou.


Não posso dizer que era a primeira porque já me tinham levado algumas por engano, mas era p'raí a terceira. E acabou quando estava a escrever a palavra "dúvidas".

Misturei surpresa e desilusão num som inintelígivel, o que fez com que a orientadora olhasse para mim com um ar maternal e dissesse:

- Às vezes acontece.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Roller Coaster

O meu dia foi assim, uma montanha-russa. Irónico, não é? A estagiária russa ter um dia que foi uma montanha-russa?

Antes de mais, deixem-me contar-vos um pormenor do dia de ontem: lembram-se do iconomato? Pois bem, aquilo é uma sauna. E como é que eu descobri? Tive que fazer um telefonema/entrevista lá. Isto parece estranho, mas nem é. No sotão não há rede nos telefones e tive que me enfiar no iconomato para poder falar com um proprietário de um restaurante.
Nem vou comentar o ridículo que foi fazê-lo numa arrecadação. Salvo seja!

Posto isto, vamos à viagem louca de hoje.
Ponto 1: muito trabalho.
Ponto 2:
trabalho a montes.
Ponto 3: trabalho p'ra caraças!
Mas não é mau. Aprendo e dá-me estaleca.

A manhã começou atribulada com chuvas e com o almoço esquecido em casa, mas passou sem sobressaltos e na hora de almoço surgiu a dúvida: Incómodo VS Incomodativo. Conclusão: são usados em alturas diferentes. Incómodo é algo que é...vá...chato e quê, mas que é contínuo. Incomodativo é algo que incomoda, mas que deriva de algo que aconteceu pontualmente.

Durante a tarde, mais trabalho, e eis que dou por mim a falar sozinha para o computador. Sim, para o computador. A minha orientadora disse logo que isso era o primeiro sintoma de loucura e, passado algum tempo, todas as minhas folhas tinham pos-it's coloridos e até o ecrã do computador já tinha um. Logo outra colega comentou que eu estava a apanhar as manias dela e da orientadora, mas - olha que bom - as más! Isto nem teria nada de especial, não estivesse eu com um ar tresloucado entre palavras sussuradas e com um marcador azul a segurar-me o cabelo.

A certa altura veio muita gente para o sotão, vários colegas e o "boss"! Era vê-los a provarem o licor que eu levei e a deliciarem-se!! Ponto alto, elogios.
Logo de seguida voltámos ao trabalho, à séria, e quando dei por ela já eram 20h00 e eu tinha que ir apanhar o último autocarro. Resultado: um artigo ficou a meio e outro por fazer. Fiquei chateada, irritada. Vim para casa a maldizer o mundo e sem paciência para nada.
Mas estava eu a jantar, quando vejo o novo anúncio do Azeite Gallo na televisão. Um copy inspirador, que me deixou um sorriso nos lábios e um olhar sonhador. Um dia quero fazer aquilo. Quero mesmo. O copy é da Andreia Ribeira: inspirem-se.

Dia 4 (parte 2)

Passado o susto da bomba, agora sim podemos falar.
Os telefonemas do costume, os gritos o costume, a má-educação do costume.
Uns precisam que lhes resolvamos a vida, outros ligam porque infelizmente integram as estatísticas mais tristes do país. A uma senhora assaltaram a casa (roubaram dinheiro, ouro, electrodomésticos e vandalizaram o espaço), a outra retiraram-lhe o bebé do qual era responsável legal sem motivos aparentes ou aviso prévio, um senhor foi maltratado no Hospital da CUF, uma outra tinha tantos problemas que se atropelava a falar e mal cheguei a perceber de que precisava.
As restantes coisas agendam-se, ignoram-se, nunca se respondem. Por vezes só queria poder responder, dizer-lhes que não temos equipas/disponibilidade - INTERESSE!!! - para as ajudar.
Nunca mais assaltam a casa de um ministro ou o tornam uma vítima de carjacking, para que as coisas sejam realmente noticiadas e se criem soluções.
Raios os partam, inúteis de fato.
E a primeira semana está prestes a terminar, os bosses (desta primeira secção) são amorosos e os dias passam-se muito bem.
A melhor do dia foi a agenda do Presidente da República. Parece que o PR vai a Vila Real e constava na agenda qualquer coisa de um lar para idosos. Aqui a boa da estagiária pergunta:

"XXX, já agendaste esta do P.R. do lar peidosos?"

Risota geral, claro está.
Até amanhã.

Dia 4 (parte 1)

PÁRA TUDO!

Acabámos de receber uma ameaça de bomba.

P.S.- Entre em pânico agora ou daqui a um bocadinho?

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Dia 3

7:00
Acordar, tomar banho, vestir, comer, preparar almoço, sair, apanhar autocarro, sair, apanhar 2º autocarro, viagem de 30 minutos com saltos capazes de me colar os discos da coluna, redacção. Primeiras boas chamadas, agenda, planeamento. Até que...

"Bom dia, minha senhora, passa-se o seguinte. Eu devia ter sido operado quando era pequeno mas só fui há oito anos. E ... bom tratava-se de uma circuncisão. O problema, minha senhora, é que isto foi mal feito, rasgaram-se sete pontos e eu agora não posso ter relações... pronto... sexuais, pronto, é mesmo assim que se diz. e o médico deu-me uma pomada e"

... os pormenores sórdidos continuaram, mas poupo-vos dos mesmos. E queria ajuda. Pois. 'Tá boa.

Tive também uma Srª. do bairro "Fim do Mundo", cuja casa vai ser demolida dia 24. A CMCascais atribuirá casas às pessoas que viviam neste bairro, mas os critérios dão prioridade a famílias, idosos ou pessoas portadoras de deficiência. O que é compreensível.

"Mas isto é muito injusto menina, não sou um ser humano também?".

O que é triste. Esta senhora acabou por me irritar porque tive imenso trabalho a pesquisar coisas sobre o Instituto de Reabilitação Urbana, que, juntamente com a Segurança Social, ajuda indivíduos isolados a arranjar casa após demolição das barracas etc, etc, etc e só ouvi

"Oh minha srª eu já fui aos institutos todos"...

Yeah right. Portanto para além de estagiária de Jornalismo, sou também um pouco Assistente Social, o que não desgosto porque me abre os olhos para a realidade do mundo.
Desabamentos, derramamentos, assaltos, demolições, "carinhoooo" e lá chegaram as 17h.
Passo acelerado nas minhas sandálias (péssima ideia), autocarro 1, autocarro 2, mercearia - camarões e queijo ralado -, casa, tarte de alho francês - calor a mais- suspiro.
Vida de estagiário é assim, não podemos ajudar o senhor com a pilinha avariada, nem a senhora que vai perder a casa e as tartes queimam-se.

O espaço

É brutal. Estou no grupo que trabalha no sotão. Não, no sotão, não, nas águas-furtadas. Melhor: na penthouse desta casa!
Temos quatro puffs, dois em pêra e dois em paralelepípedo, verdes e turquesa. Temos imensa luz natural e as cadeiras são confortáveis - pelo menos a minha é.
Ah e post-it's, temos uma parte da parede pintalgada com amarelo, laranja e rosa-choque com as citações mais insólitas que se ouvem por aqui. Eu já lá tenho 2, sim 2! Um deles está relacionado com a expressão popular "pau oco" e ou outro é a informação de que "os AC/DC lançaram o seu primeiro disco em 1874" que eu fiz o favor de escrever num dos trabalhos que me foi pedido.

Agora um tour:
Descemos as escadas e temos uma casa de banho, uma impressora(por baixo das escadas), um escritório e a sala de reuniões. Seguimos por um corredor, no qual há mais uma sala de trabalho e uma casa de banho em frente. À saída do corredor temos uma escadaria ampla e, antes dela, uma arrecadação (aqui apelidado de economato) com material de escritório.
No primeiro patamar das escadas é o escritório dos "bosses" e no rés-do-chão temos a porta de entrada e mais uma casa de banho que serve a maior sala da casa, que por sua vez alberga também o maior grupo de trabalho. Seguimos para outro corredor e vemos logo o escritório da recepcionista/telefonista, passamos pela cozinha (que tem mais uma casa de banho) e vamos dar ao escritório da contabilidade. Se virarmos para trás vemos umas escadas em profundidade que vão dar ao que seria a garagem mas que é mais uma sala de trabalho. Ao lado da porta desta temos mais escadas que vão dar às instalações de outra empresa acoplada a nós e que trabalha connosco. Aí há mais escritórios e salas amplas para as sessões fotográficas.

Ufa...

Cansados? Ainda não vos falei do espaço exterior!

Talvez outro dia.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Dia 2

"Estou sim? Bom dia minha senhora, olhe, é para dizer que um homem foi baleado na cabeça, levou 4 tiros na esquadra de Portimão".

Este foi o início da minha manhã. Custa ouvir a vida que segue la fora. Iníciamos agora uma etapa importantíssima que começa com a morte de outros - ou o ferimento grave, como foi o caso -.
Não sou facilmente impressionável. O senhor levou três tiros (o quarto de que a senhora falou, foi provavelmente disparado pela polícia), um na boca, dois na nuca no interior de uma esquadra policial - onde pára este país? -, curiosamente, quem o baleou era a pessoa de quem ele estava a apresentar queixa - e eu, na minha egoísta existência só pensava e logo hoje que eu saio às 20h30 e já é de noite... -.
Uns ligam para dizer que estão apenas duas pessoas a atender 300 na Loja do Cidadão de Telheiras, outros enviam cartas desesperadas que as minhas colegas apagam com rapidez e perícia. Hoje soube também que não devemos dizer ao telefone "se houver interesse, contacta-lo-emos". NÃO! "Se houver disponibilidade". Ora... la mierde. Nem tudo é notícia, mas custa-me não olhar duas vezes para o nome da pessoa que viu no meu órgão de comunicação a eventual solução para o seu problema, tornando-o público. Custa-me ouvir "desculpe, não sei se receberam o meu email...". Sim, recebemos mas apagámos porque a sua vida não motiva uma equipa a sair em reportagem. Mesmo que não motive realmente, custa.
Talvez seja um pouco impressionável. Não tanto com o sangue. Mais com estes apelos mudos que chegam por email, ou os gritos abafados do outro lado do telefone.
Achamos sempre que a mudança vive em nós e ainda o sinto - mal de mim se a frustração me comesse a esperança no 2º dia - mas a verdade é que devemos tudo às pessoas que ligam, aos que se preocupam, aos que denunciam. A eles devemos a verdade, a prontidão das notícias que recebemos todos os dias. A eles agradeço e me desculpo não receberem uma mensagem de retorno.
Agora coisas menos sérias, hoje percebi que a senhora do carrinho é brasileira e deve ser do Nordeste e por isso por vezes sai-lhe CARINHO! em vez de carrinho, que fica a coisa mais fofa do mundo, pensar que alguém duas vezes por dia distribui carinho na redacção.
Saí às 20h30, não foi preocupante, afinal o bairrozinho onde apanho o autocarro não parece tão mau assim, espero que não tenha nunca que fazer uma chamada angustiada como as que recebo.
Por hoje, nada mais a agendar.

Correio Surpresa

Eu explico. Este fim de semana fui a casa - sim, na santa terrinha, embora eu prefira chamar-lhe paraíso no campo - e acontece que em conversa já tinha "prometido" aos colegas (eu cá não prometo nada, posso é deixar a possibilidade no ar!) as minhas famosas bolachas de canela, os doces típicos da terrinha e o delicioso licor de Folha de Figueira. Assim, passei a tarde de sábado entre farinha, açúcar e canela, ombreada pela minha mãe, por sua vez a tratar do licor. Tudo, para que segunda-feira esta bela agência pudesse usufruir destes petiscos.

"O que é que sucede?"


Aqui a russa levanta-se tarde no domingo, almoça e sai à pressa para ir apanhar o comboio. Resultado: bolachas e licor em casa. Solução: papás enviam pelo correio.

Eis que, perto do meio-dia e meio, recebemos um caixotão com copinhos de plástico, uma garrafa de licor, bolachas e bolachinhas e os doces típicos. Uma festa. Os que provaram adoraram! A ponto de já se ouvirem comentários como "o que vale é que hoje vou ao ginário!" e de já me terem pedido a receita. Choveram elogios à minha mão p'á bolacha no ichat! =)

Agora isto tudo era muito giro se eu não estivesse piursa com a TMN ou com a The Phone House ou com os dois. Estou sem net, supostamente por uma falha de comunicação deles, e agora dizem-me que tenho que ir à loja onde comprei a placa - meus amigos, não tenho vida para isso. Logo à noite vou ligar para lá e desancá-los. E ai deles que não me resolvam o problema. Não a sério, estou capaz de esfrangalhar alguém, mesmo. É que isto de estar a escrever na empresa, não dá com nada, não tenho tempo, não quero abusar, enfim...

A russa hoje está chateada. Venham as bolachas.


P.S.
- Eis que surge um motivo de alegria! Um título sugerido pour moi, para um programa informático, foi aprovado à primeira, depois de mil e uma tentativas! wee!

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Dia 1

Mal dormi.

Andei a contar os dias até ao fim de Agosto; depois, quis aproveitar o Verão que já se fora na primeira semana de Setembro; finalmente chegou o fim-de-semana para pensar "Ok não vou estagiar de All-Star e calças rotas, talvez seja melhor ir comprar alguma coisa". Blusinhas para aqui, sandálias para ali, botas e futilidades várias depois, aproveitei o último fim-de-semana de estudante da melhor maneira possível.
Assim, como dizia, mal dormi. Hoje ia ser o primeiro dia...
E lá fui, de boleia, colo e mimo qual primeiro dia de escola, eu com 5 anos e mochila maior que eu às costas. Não. Sandálias maiores que eu nos pés. E, ei-la. A redacção.
O trabalho não choca, não cansa - para já -. Hoje e durante cerca de um mês, eu decido o que é notícia. Então assim é, recebo (eu e toda a redacção, leia-se) a agenda do PR e do PM, a chamada da Srª XXXX que entende que o palhaç* do PM devia é enfiar os portáteis que anda a dar por um sítio que ela sabe porque os miúdos precisam é de livros e os livros estão caros e as pessoas fotocopiam-nos - pois, mas não se pode - e não devia ter votado neles mas com o meu voto não contam mais, malvados e lá desliga a Srª XXXX com a consciência aliviada e eu com os ouvidos a arquejar.
Nisto segue-se algo, para mim, insólito.
O carrinho. Ora, o carrinho não é mais que um carrinho empurrado por uma senhora - a que grita "CARRINHO" ao entrar na redacção, seguido de um "Bom-Dia", e toda a gente a ela se dirige para comer fruta e iogurtes, gentilmente oferecidos pelo proprietário do órgão de comunicação (até saber, é a ele que agradeço em segredo, já que não dão almoço). E lá comi uma banana (eu sei, é ridículo, porque raio alguém há-de comer logo uma banana no primeiro dia de estágio?), mas já tinha comido uma pêra e uma maçã.
As colegas estagiárias são simpáticas e solícitas, as colegas patroas são razoáveis e não muito antipáticas, por isso acho que correu bem.
Nada mais para agendar.

Primeiro mês

Inacreditável. Já passou um mês, inteirinho e mais uns dias.
Estava eu na piscina, de papo para o ar a apanhar solinho, quando recebo uma chamada a pedirem-me para começar a estagiar no dia seguinte! Ora bem, passado o susto, ficou combinado começar na segunda-feira seguinte: 28 de Julho. Agência de Publicidade, mundo real, aí vou eu - tentar ser copywiter.
E assim foi. Desde então é sempre a aprender, sempre a subir, apesar de alguns passos em falso.
Nas primeiras semanas foi a desorientação habitual, nada de grave. Poucos afazeres, marcar entrevistas, fazer pesquisa e escrever uma ou outra coisa. Ao contrário do que acontece muitas vezes, notei um esforço para arranjarem sempre alguma coisa aqui para a russa - como fui apelidada.
Costumam passar-me briefings completos e claros, o que me ajuda imenso. Não, não me posso queixar, de todo. O ambiente de trabalho é muito bom, sou tratada como igual e, apesar dos horários às vezes serem um bocadinho mais puxados do que o normal, sinto-me confortável.
Por enquanto a maioria dos meus trabalhos ainda está a ser revista por um outro copy, digo a maioria porque cada vez mais sinto uma maior confiança dos colegas naquilo que escrevo: quando não há copy revisor disponível, segue para o cliente sem grandes dores de cabeça para o account.

Yay!

Mas é facto que já fiz erros de que não gostei, mas geralmente é controlável e não é grave. Balanço positivo!
Numa próxima conto-vos como foi tomar conta de duas tartarugas e, melhor que isso, descrevo-vos o espaço que me rodeia!